Quem me dera ser angolana…
… mas não quero imaginar o sacrifício financeiro que muitos angolanos fizeram para ver este jogo ao vivo e a cores, num país no qual não sabem movimentar-se. Deutschland…
Quem me dera ser angolana…
…. Para ter resposta a esta pergunta: o que nos move? A esperança. Que nunca morre. Nunca.
Tenho saudades de ser Angolana assim (se algum dia eu fui) tenho saudades de ter fé no dia a seguir se alguma vez a tive. Tenho tudo (ou quase) que uma pessoa pode desejar, e não sou feliz, não consigo ser. Minha amiga Anelli chama-me de Diva. E eu insisto com ela a dizer que estou longe disso. Em conversa com ela, eu disse “Anelli, eu não faço nada que mude o mundo diariamente, cometo erros, choro…” e ela replicou “e que Diva não chora? E que pessoa não está em crescimento espiritual constante? E quem não comete erros?”.
Quem me dera ser Angolana…
…Para saber o que é ser uma diva…
Uma mulher que acorda todos os dias às 4h30 para ir cartar agua com os seus filhos pequenos, porque as canalizações e as torneiras que “o branco” deixou já não estão em uso desde 1975.
Uma mulher que se esconde na mata durante os confrontos com todos os seus filhos e que se vê na obrigação de matar o seu bebé que chora para que as tropas inimigas não descubram a sua família no meio das arvores.
Uma mulher que como a minha mãe acorda todos os dias e não vê as filhas em casa porque estão a 7000 quilómetros a estudar por um futuro melhor.
Uma mulher que não sabe o que é electricidade em casa, que manuseia à perfeição as lâmpadas a petróleo, que já tem os dedos calejados e queimados de tanto fazer isso.
Uma mulher que já não tem perna e que consegue alimentar os seus filhos…
Uma mulher que vai à maternidade ter o seu filho, na esperança que não morra como os anteriores, que não tem maca nem cama para se deitar, que não tem amigos para ajudar, que vai dar a luz de pé num canto, que será cortada com uma lamina suja e que sabe que haverá de voltar para o ano…
Tudo vai dar ao mesmo, Diva = mulher sacrificada pelos filhos. Pouco importa a maneira. Nos jornais económicos, dizem que a economia angolana está nas mãos das mulheres. Não preciso de jornais para ver isso. Nas praças, quem está lá? Quem são as kingilas? Quem é “a” origem?
Sinto que já estou meio a divagar, começo a falar de ser angolana e chego a noção de Diva. Mas… na volta, não estou assim tão longe. Não é de todo a minha pretensão de ser Diva, mas se eu pudesse apenas ser mais angolana…
Como se a mulher angolana se importasse realmente de ter esses apelidos… ela apenas quer saúde, educação, ter trabalho, ser RESPEITADA (e para isso ainda falta tanto!).
Quem me dera ser angolana…
… mas já comecei mal esta história. Não nasci em Angola (no Jovens de Angola, isso já mereceu debate…), mas em Cuba, o meu nome não é Angolano mas Alemão, sempre falei mais em francês do que em Português, sempre estudei em escolas e liceus franceses, dos 19 anos de vida, vivi somente 11 em terras mwangolés. Quando eu morava lá, detestava aquilo, achava “démodé” e “brega”. Hoje, lamento informar, por mais que queira, não sei se sou capaz de ir para lá morar. Porque já tenho os meus “vícios”, outra maneira de ser e de ver as coisas. O ideal para mim seria de viver por e para Angola, ir lá com frequência sem ter de la morar intramuros (graças a Deus, mãe não lê meu blog :) )
Não é feio e horrível o que eu estou a dizer? Não é antipatriótico? No fundo, acho que é, mas já não me posso mentir. E as coisas ainda podem mudar.
Quem me dera ser angolana…
… e sentir na pele este orgulho imenso que sinto de gritar este hino (hei, confesso que também cantei o Português!), de ouvir que se fala de Angola sem ser pela guerra, de ver 23 homens (ou isso) que levam ao mais alto as cores do meu pais. Preto da nossa terra queima, vermelho pelo nosso sangue derramado e o amarelo da cor dos nossos utensílios, das nossas armas.
Quem me dera ser angolana…
…. E ser mais forte para com as situações com as quais me deparo todos os dias, de pessoas que me magoam (deliberadamente ou sem querer), de coisas que eu não compreendo, de atitudes que eu não entendo, de frases que eu não escrevo.
Quem me dera ser angolana…
…. E ser mais feliz, viver cada dia intensamente, como se fosse o ultimo, de ter problemas e de não me queixar, de estar sempre bem-humorada, sorriso nos lábios e bola para a frente (que atrás vem gente).
Quem me dera ser angolana…
…. E que orgulho de o ser para sempre!...





